VAGINISMO: A MULHER VAGÍNICA E SUA DOR EMOCIONAL


18-01-2010 15:21

Conceito de vaginismo:
Rodrigues Jr. e Protti (2004) caracterizam o vaginismo como uma dificuldade que algumas mulheres possuem para
viver de forma plena a sua sexualidade, sendo este resultante de específicas interações psicofisiosocial e que se
expressa por espasmos dos músculos que estão ao redor do intróito vaginal impedindo de maneira parcial ou total o
coito.

Definição de dor:
Perissinotti, D.M.N., diz em seu artigo que: “A IASP (International Association to Study of Pain)(10) criou um conceito amplo para designar a dor, já largamente divulgado, que a considera “uma experiência sensorial e emocional desagradável, que é associada ou descrita em termos de lesões teciduais”.

A dor é a sinalização de que algo não vai bem com nosso corpo e/ou com nossa vida afetivo-emocional. Sabemos que é uma experiência emocional única e pessoal, portanto subjetiva, variando em sua intensidade, o grupo cultural e familiar. Sua expressão e seu limiar para suportar a dor podem ser aprendidos ou controlados segundo os modelos familiares e culturais.

Todavia, a dor emocional também poderá se expressar sob outras formas, tais como, angústia, depressão, frustração intensa, extrema ansiedade, entre outras.

Sua sensação ou sintomas pode levar a pessoa a procurar ajuda, bem como, a um comportamento de evitação logo após o seu aparecimento devido ao medo do enfrentamento, vergonha, culpa, etc...

Tanto é verdade que um bom número de pessoas com disfunção sexual demora a procurar uma ajuda, pois apresentam um desconforto só de pensarem que possuem uma vida sexual fora do padrão de resposta sexual esperado. Além disso, sentem vergonha ao expor uma dificuldade no desempenho e fogem do enfrentamento de possíveis julgamentos. Revelar que tem o problema implicaria, no caso da vagínica, em assumir publicamente a não consumação do ato sexual e, conseqüentemente, a incorporação do papel de frígida, infértil, “diferente” ou de assexuada. 

A mulher vagínica mostra certa dificuldade para expressar seus sentimentos, principalmente, de dor emocional. Embute seus reais sentimentos para ser aceita e isto, também, ajuda a manter o alto limiar para a dor (tolerância) emocional. Em algumas mulheres forma-se, também, a crença de não ser merecedora de algo diferente da sua condição disfuncional. Entendemos que estes são, também, alguns dos aspectos que leva a mulher vagínica a esconder de si mesma e por tanto tempo, a disfunção sexual, e passa a experimentar sozinha a dor da rejeição ou das suas fantasias de rejeição entre outras. Possivelmente, faz da sua vagina um canal de expressão dos seus sentimentos de dor emocional.

Mobilizadas por todos os aspectos mencionados acima, principalmente; e ainda pela falta de informação a respeito da disfunção; disponibilidade de profissionais aptos para resolver o seu problema ou mesmo encaminhar adequadamente para um especialista em terapia sexual e/ou motivos econômicos, tudo isso faz com que a maioria das pacientes só busque ajuda após 5 ou 10 anos posterior à instalação desta disfunção sexual.

Portanto, é a partir do interdiscurso pautado na sua história de vida, nas experiências de tentativas e frustrações nas relações sexuais quanto ao coito e nos discursos sociais a respeito da sexualidade, ou melhor, da representação social da sexualidade da mulher vagínica, que destacamos as várias formas de expressão de dor emocional desta mulher. Ou melhor, dos seus sentimentos e fantasias negativas.

Esses sentimentos e fantasias variam de mulher para mulher, pois cada uma tem uma história específica de vida, educação com traços diferenciados, formas de perceber e os discursos sociais em torno da sua sexualidade, maneiras próprias para estabelecer relações com seu mundo interno e externo e parceiros diferenciados. Porém, encontramos durante esta pesquisa alguns sentimentos comuns nas mulheres investigadas o que nos faz entender que estas semelhanças existem a partir de discursos sociais, também, semelhantes.

Segue alguns sentimentos e fantasias negativas:

solidão, ansiedade, humilhação, angústia, desespero e inadequação;

medo de admitir o fracasso socialmente e, de ser estigmatizada por apresentar-se “diferente” das  

demais mulheres, o sentido de ser não “normal”;

vergonha e culpa pelo fracasso por não sentir-se esposa ou mulher, pela não consumação do ato e

por não poder gerar um filho;

crença de que algo fantasioso, mágico ou divino resolverá o seu problema, como nos casamentos dos contos infantis em que o casamento da princesa com o príncipe faz gerar filhos, sem a menção do sexo, pela magia ou como a gravidez de Jesus, sem o intercurso. A inseminação artificial pode resolver o problema relativo à maternidade, contudo, pode impedi-la de tratar a disfunção e de sentir-se plena em sua sexualidade;

fantasias de rejeição em relação aos amigos, família, marido e outros, favorecendo o bloqueio de seus relacionamentos, quando na verdade ela passa a se relacionar de forma superficial, com medo de descobrirem seu problema (fecha-se para o mundo externo);

falta de confiança em si e nos outros;

necessidade de interromper o casamento como forma de solução do problema, na medida em que acredita ser responsável pela infelicidade do parceiro por não poder lhe proporcionar o prazer no coito; quando não escolhe um parceiro mantenedor de sua disfunção;

perda do controle e pré-ocupação frente a possibilidade de acontecer o coito e o medo do fracasso promove um grau de ansiedade extremo e leva à resposta automática disfuncional ou para a evitação de outras relações sexuais;

A mulher desenvolve uma auto-imagem desvalorizada pela identidade de infértil devido a pouca ou quase nenhuma importância dada por seu médico para o tratamento do vaginismo indicando-lhe métodos, tal como, a inseminação para a realização do seu desejo de ser mãe.

 Segundo, Perissinotti, D.M.N.: “Partindo do pressuposto de que a dor é ao lado dos sintomas objetivos caracteristicamente, subjetiva, ela não poderá ser medida, diagnosticada e conduzida somente pelo prisma objetivo (19). Deve ser avaliada, estimada, reputada e considerada pelas respostas e explicações. Em suma, pelos auto-relatos, ou ainda pelas respostas afetivas, comportamentais e emocionais, entre outras”.

Referência Bibliográfica:
Perissinotti, D.M.N. -COMPREENDENDO O PROCESSO DOLOROSO. A DOR COMO TRAIÇÃO www.cuidadospaliativos.com.br/artigo.php?cdTexto=26

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